





Parto da compreensão de que a Educação inclusiva diz respeito à produção do comum. Diz respeito às formas pelas quais uma sociedade organiza a convivência entre diferenças, distribui participação social e produz — ou impede — condições efetivas de pertencimento, reconhecimento e acesso à vida coletiva.
Nesse sentido, pensar a inclusão exige disputar os próprios sentidos de Educação, de humanidade e de vida em comum. Exige compreender a escola não apenas como instituição responsável pela transmissão de conhecimentos, mas também como espaço de produção de normas, hierarquias e critérios de legitimidade social.
A escola moderna foi historicamente organizada em torno da promessa de homogeneização dos sujeitos. Seus modos de funcionamento, suas temporalidades, seus critérios de inteligência, aprendizagem e desempenho foram amplamente estruturados a partir da idealização de um sujeito considerado universal: autônomo, racional, produtivo, adaptável e capaz de responder adequadamente às expectativas normativas de participação social.
Nesse contexto, a deficiência ocupa um lugar particularmente revelador.
Não porque represente uma exceção à experiência humana, mas porque explicita os limites de uma organização social sustentada pela recusa da vulnerabilidade, da interdependência e da diferença. A presença concreta de corpos, modos de comunicação, tempos e formas de existência que desafiam os ideais modernos de independência e produtividade produz fissuras importantes nas racionalidades que organizam a escola, as políticas públicas e a própria ideia de convivência social.
É nesse ponto que o anticapacitismo passa a operar, para mim, como uma crítica estrutural às formas contemporâneas de organização da vida.
O capacitismo não se restringe a atitudes discriminatórias individuais. Trata-se de uma racionalidade política que distribui valor social aos corpos conforme sua proximidade com os ideais de normalidade, autonomia e eficiência. Uma racionalidade que atravessa instituições, práticas pedagógicas, políticas públicas, relações econômicas e modos de produção de conhecimento.
Seus efeitos aparecem quando determinadas vidas passam a ser percebidas prioritariamente a partir da falta, do déficit, do risco ou da inadequação. Aparecem quando a diferença é convertida em problema técnico a ser administrado. Aparecem quando pertencimento social passa a depender da capacidade de adaptação à norma.
Ao longo das últimas décadas, a ampliação do discurso inclusivo não eliminou essas operações. Em muitos casos, apenas sofisticou seus mecanismos de funcionamento.
A patologização crescente da vida escolar, a hiperprescrição pedagógica, a transformação da acessibilidade em protocolo técnico, a captura da deficiência pelo mercado da normalização e a terceirização da responsabilidade coletiva para especialistas e dispositivos individualizantes frequentemente preservam o vocabulário da inclusão ao mesmo tempo em que esvaziam sua dimensão ética e política.
Nesse processo, a singularidade corre o risco de ser substituída pela classificação, e a convivência pela gestão técnica das diferenças.
Interessa-me, portanto, pensar a inclusão como uma inflexão ética, política e epistemológica capaz de deslocar os fundamentos historicamente responsáveis pela normalização dos corpos, das inteligências e das formas consideradas legítimas de aprender, participar e existir na escola.
Essa perspectiva implica compreender a interdependência não como exceção da experiência humana, mas como condição constitutiva da vida coletiva. Implica reconhecer o cuidado como dimensão política fundamental e sustentar formas de convivência comprometidas com a participação radical das diferenças no mundo comum.
Por essa razão, considero insuficientes concepções de inclusão centradas exclusivamente na adaptação individual dos sujeitos às estruturas já estabelecidas. A ampliação efetiva da participação social exige também uma crítica às racionalidades que organizam a exclusão, à naturalização das hierarquias humanas e aos modos pelos quais determinadas vidas continuam sendo percebidas como excessivamente custosas, improdutivas ou inconvenientes para os ideais contemporâneos de desempenho e eficiência.
Defendo a escola comum como espaço político incontornável de produção democrática da vida coletiva. Não porque a convivência entre diferenças produza harmonia, mas porque a experiência democrática exige a sustentação ética e institucional da heterogeneidade humana.
A Educação, nessa perspectiva, não se realiza na eliminação do conflito, do dissenso ou do imprevisto. Realiza-se justamente na capacidade de construir formas de vida coletiva que não transformem a diferença em justificativa para segregação, tutela ou hierarquização do valor humano.
É a partir dessa compreensão que organizo meu trabalho na pesquisa, na escrita, na formação de professores e na atuação pública.
Interessa-me produzir reflexão crítica sobre os processos contemporâneos de medicalização da vida, individualização das responsabilidades coletivas, mercantilização da deficiência e esvaziamento político da inclusão. Interessa-me, sobretudo, disputar concepções de Educação comprometidas com a construção de um mundo comum capaz de sustentar a dignidade humana em sua radical heterogeneidade.